Creio já ter ouvido muitas epopéias de nobres cavaleiros, grandes batalhas,feitos grandiosos, palácios faraônicos,belas donzelas, e espadas erguidas em lealdade aos seus soberanos. No entanto, nos meus anos de viagem como bardo e trovador, presenciei um caso curioso: um guerreiro, vassalo do povo. Esta saga me inspira diariamente, apesar de depois de muitos anos eu não haver conseguido materializar tal inspiração em versos acompanhados pela minha alaúde. Tal lamento,o eu compenso em prosar com a maior clareza possível, pois alguns detalhes eu ouvi falar, outros testemunhei e outro(em especial)participei.
Em Enuria, um vilarejo humilde e distante, viviam várias famílias camponesas, trabalhando a causa e a razão de sua existência: a terra. Desde as crianças que aprendem a andar até os anciões dedicavam seu tempo ao cultivo e à colheita,o suficiente para subsistirem, pagar os pesados impostos do Reino em guerra, assim,vender o restante por um preço praticamente simbólico no mercado. A vida daquele povo resumia-se ao trabalho diário e ao entardecer, uma vez por semana participavam dos cultos da Ordem Sacra. O representante da Ordem Sacra em Enuria,
Sacerdote Torcor, era o sustentáculo motivacional daquele oprimido povo, confortando-os nas secas e pragas,alegava ser a fúria dos Deuses, pois o vilarejo não era solidário o bastante, logo era paga uma parte dos grãos à Ordem, os intermediários dos Deuses.
Um menino, em especial, tinha um problema: se desligava do mundo durante o trabalho, o sagrado ato de capinar, roçava a terra com o arado,mas sem motivo aparente parava, com a ferramenta cravada. Durante uma colheita deixou cair um galho de macieira, estragando todos os frutos presos a ele. Como não rendia, seus pais preocupados levaram o menino a Torcor ,para ser benzido. Dia seguinte, o garoto abençoado continuava inoperante, os outros lavradores, sabendo que era bem alimentado e dormia em uma cama própria, ótimas condições para aquele contexto, concluíram que ele estava vadiando. Foi castigado à noite pelo pai. No dia do Culto, antes da celebração os pais do guri o levaram para ter uma palavra com Torcor, já que temiam que estivesse endiabrado.
O Sacerdote levou o jovem à sacristia e começou a questioná-lo: -Porque não trabalhas?
O que te aflinges filho? O garoto,tímido,retruca:-Não sou teu filho! O Sacerdote repreende: -Tenha modos garoto, os Deuses no céu estão vendo, por favor responda à pergunta. O menino silencia por uns instantes e responde olhando fixamente para o teto:-Sabe, eu não consigo encontrar um motivo para isso, essa nossa vida é tão monótona,só cultivar...o mundo é só isso? E damos tudo pro tal do “Imposto”. Porque nós plantamos tanto pra comer tão pouco? Até um menino da colheita morreu de fome essa semana. Os pais impressionados, nunca ouviram algo parecido do filho. Torcor diante daquela reação,dá uma leve batida com a bengala na cabeça da criança replica: -O que é isso?como pode dizer tamanha besteira? Deve ser obediente e trabalhar pelos deuses para ir para os Céus. O garoto não deixa passar:- Então porque o senhor não cultiva? Torcor irrita-se:-Nunca mais repita isso!eu trabalho por todos, no espiritual, e tu deveria trabalhar por Enuria, antes que arda nas chamas, vou ao culto, trate de ficar quieto, controle sua língua,ela leva ao pecado,deve três sacas de trigo a mais à Ordem,além das cinco de
constume.
Agora com trabalho redobrado, o garoto volta à roça, determinado a pagar sua dívida, pois foi temia arder nas chamas, não tinha ideia do que era aquilo, porém sabia que era ruim. Passou a trabalhar com mais entusiasmo que todos em Enuria. Ao final do mês só faltou uma saca da dívida,
Torcor, impressionado com a produtividade do garoto ele foi perdoado pelo pecado da preguiça, mas não da língua, assim cobrou uma saca a mais além da que faltou. Ao amanhecer o menino volta a roça e retoma seu trabalho, antes de todo mundo,no entanto, por algum motivo, demoravam para crescer as plantas, plantavam e não vingava. Não se sabia o que fazer,nesse momento todos recorreram ao Sacerdote,queriam saber da atuação das forças sagradas .Na casa do menino já sabiam de que se tratava: é o castigo pelo calote. Um garotinho de 9 anos foi responsabilizado pela estiagem, as famílias que não pouparam o suficiente passaram fome, não vendiam ,pois tinham que consumir tudo que produziam, de tal forma que em pouco tempo, muitos não poderiam pagar os impostos reais e religiosos. Todos se afastaram da família do “Menino Praga', como foi chamado, até o extremo de terem apedrejado seu casebre. Como se não bastasse a pressão externa,dentro de casa, seus pais não lhe davam mais ouvidos, apenas tapas .O Pessimismo afetou até a Ordem: Torcor em seus sermões alertou que choveria, nem que fosse sangue, em referência à guerra, que o Reino estava perdendo, e comentou com repúdio sobre os cemitérios clandestinos, onde os soldados mortos eram enterrados,sem nenhum rito sagrado,com armadura,armas e jóias, e mais horrorizado ainda dos ladrões de túmulos que escavavam vários lugares a procura de objetos de valor de soldados mortos.
Naquela noite o garoto não conseguia dormir,não era possível para aquela criança suportar seu mundo desmoronar. Lembrou-se das contos de fadas que ouvia dos pais quando era menor, sobre cavaleiros matadores de dragões e salvadores de princesas, adorava ouvi-las, por isso resolveu fugir de casa à noite para ver se encontrava algum cavaleiro debaixo da terra, estava curioso. Caminhava na noite a sós com as estrelas e a lua crescente, em direção ao bosque, as vozes da selva o chamavam, costumava brincar lá,sentia-se livre,apesar dos pais o proibirem. O menino curioso encontrou um amontoado de terra um pouco antes do bosque, pensou que poderia ser um túmulo de guerra antigo. Cavou,cavou com as próprias mãos sem parar, com todo o vigor,até encontrar uma terra um pouco mais úmida no meio do buraco, enfiou o punho, queria ver o que era e sentiu um líquido refrescante e cristalino: era Água. Estava determinado a cavar até o fim e encontrar uma fonte subterrânea .Não parou de cavar, por muitas horas, encontrava a terra cada vez mais úmida,até que perto do alvorecer ,após tirar um último punhado de barro jorrou um imenso jato de água, o menino cansado e sedento bebeu o que pode,depois daquele jato localizou uma imensa fonte subterrânea, suficiente para salvar a safra,adormeceu à beira da fonte. Os vizinhos acordaram com o barulho da água, e foram verificar o ocorrido:Um Milagre! Era unânime, todos comemoravam a fonte encontrada, os pais dele também não esconderam a euforia, da mesma forma puniram o filho por ter fugido de casa,Torcor,por sua vez, pediu piedade, ele já pagou pelo estrago que fez.
Todos esperavam que tudo melhoraria com a água, de fato a colheita voltou, e se recuperou facilmente, quando a notícia chegou à Capital, mandaram tropas para “proteger”a safra de Enuria, inspecionando todas as etapas da produção e recolhendo os impostos acumulados do tempo de seca.
O menino seguiu trabalhando, não com o entusiasmo nem com lentidão de antes,perdeu a fama de Praga, porém ficou sem fama de herói por ter salvo Enuria toda, apenas teve um culto em sua homenagem. Tudo transcorria em paz até ano depois,quando o caos voltou.
Ao entardecer, cascos de cavalos trovejaram. tochas iluminavam o caminho, homens brutais grunhiam,o aço balançava no ar, eram um bando de saqueadores, aproveitam principalmente tempos de guerra para invadir vila, matar, pilhar e satisfazer seus desejos carnais. Chegaram jogando tochas nas plantações, passaram o fio da espada nos poucos guardas restantes, armados apenas o suficiente para cobrar impostos,assim como cortaram os lavradores em seu caminho, não faziam distinção alguma em sua crueldade, apenas não davam golpes fatais em mulheres,as quais queriam para outros fins, rapidamente foi se findando a resistência de Enuria. Em meio a confusão todos corriam em pânico, inclusive os pais do menino, sem sequer cogitarem onde ele estava,ele corria em direção a eles, mas rapidamente perdeu-os de vista. Não sabia o que fazer diante de tanta violência, só sabia que precisava sair de lá, e talvez lutar, resolveu fugir para o bosque,antes de sair encontrou um soldado morto , ainda brandindo sua espada,, tirou-a da mão, era extremamente pesada e longa para uma criança,tinha dificuldade em carregá-la. Quando olhou para o lado viu um ginete com uma espada na mão cavalgando em sua direção,em um impulso correu para o bosque, sem sequer sentir o peso da enorme espada que carregava, se escondeu no mato, não foi o bastante, e para agravar mais dois bandidos entraram um ginete,armado com um sabre e outro montado em um cavalo maior armado com um machado.
Continuaram correndo morro a cima, o menino não conhecia o trecho, assim acabou sendo encurralado em um frente um abismo,nunca lutou com uma espada,estava apavorado e estava sendo perseguido por três assassinos montados e muito maiores que ele,porém, ele não se entregou. Aquele que andava com o machado, deixou claro que era o chefe e deu as ordens:Olha esse o pavor guri!Mata ele, mas pode ser devagar pra ele aproveitar. O bandido avança e responde:É pra já chefe. O saqueador desmonta do cavalo e empurra o menino ao chão e coloca o pé no pescoço dele e zomba dele:-Que esse bebê quer fazer com essa espada grande na mão, isso não é brinquedo pra ti. Depois chuta as costelas dele, ao som de risadas do chefe. O menino chutado não sabia o que fazer,precisava sair dali, voltar pra sua família, por pior que fosse, não podia se dar por vencido, em um impulso parecido com o da escavação da fonte, saca a espada com as duas mão e em um único movimento ergue-a e sem querer, acerta mortalmente o tórax de seu carrasco e levanta-se. O chefe não se conforma com a cena e e resolve pegar a criança ele mesmo,junto de seu comandado sobrevivente, antes que virasse a cabeça para dar a ordem uma outra espada atinge o saqueador , surge um homem alto,musculoso,careca,com um cavanhaque branco,de pele escura, brandindo uma espada longa, e com um olhar furioso, diz:-Como é divertido dois contra um ainda mais se é uma criança assustada, e que tal mais dez? O Chefe, tentando falaciar:-Sabe com quem está falando seu velho? Sou Treom, chefe mercenário de muitos homens,matamos e pilhamos e esse fedelho é o pŕoximo. O velho espadachim, sem mudar a expressão facial responde:-Eu com isso, sou Agromir, chefe da Tribo dos Espadachins, somos temidos pelo Rei. Treom tenta golpear o menino com o machado,ele bloqueia com a espada, quebrando a arma do patife,que se vê desarmado e diante não de dois, mas de doze inimigos, os companheiros de Agromir, Treom sem opção abandona a montaria e salta da cachoeira com um olhar vingativo em direção ao garoto.
Agromir se aproxima, o garoto, sem saber a intenção do espadachim,treme de pavor,porém Agromir ajoelha-se e diz:-Menino, foi muito valente hoje,eu vi .Treino espachins a 20 anos e nunca vi alguém que visivelmente nunca pegou uma espada derrotar um inimigo maior e desarmar outro, conte o que aconteceu, eu que te salvei. O menino balbuciante responde: -Sou de Enuria, eles invadiram e atacaram todos, nem sei se meus pais estão vivos,eu apenas me defendi. Agromir:-Então, que acha de ir conosco, temos uma aldeia depois da montanha, pra depois encontrar sua família, até lá seremos sua família,aproveito e ensino os segredos da espada,Aliás qual é seu nome? Ele responde:-Riward.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
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